segunda-feira, 11 de abril de 2011

Serei Saudade?


Sempre desejei escrever acerca da Saudade, e quando digo isto, não o digo que pretendo criar mais uma enunciação, ou repetição de frases feitas. Não é meu objectivo criar mais uma definição do tipo dicionário, poderia abrir as inúmeras páginas de um e encontrar palavras bem mais fáceis de definir. Porém se um dia criarem um dicionário romântico, ou idílico, seria mais natural colocar o texto que pretendo dedicar a esta palavra tão simples e tão forte.Não vou procurar dizer o que é a Saudade, mas sim dizer o que é ter, sentir e viver com Saudade. Para o conseguir acredito que a forma mais credível, e não mais fácil, mais real e não mais simples, é conseguir faze-lo quando me encontro num momento em que este sentimento me abraça.
Mas este desejo é difícil de concretizar pela dificuldade de transmitir o que sinto quando me encontro no estado latente da Saudade, e este momento não é excepção, vivo agora um momento de enorme Saudade, mas vivo também com a enorme vontade de ultrapassar este obstáculo e conseguir usar pequenas letras de forma aleatória, formando assim um conjunto de frases capazes de homenagear uma palavra tão grande, tão grande como a palavra Amor!
Não almejo grandes feitos nem grandes condecorações, já que acredito que a simplicidade com que este sentimento nos atinge, deverá ser a mesma a descreve-la. Apesar de simples, é enorme o seu sentido, sentimentos como a paixão e o amor encontram muitas vezes a sua razão e a sua certeza, no momento em que se associam à saudade. Quase sempre a saudade nasce do amor, de qualquer tipo de amor, de mãe para filho, de filho para mãe, de amigo para amiga, por um irmão, por um sorriso por um olhar. Sim é possível ter amor por um olhar, há olhares que nos transportam para o outro lado, em que somos felizes, onde sabemos que estamos seguros. O entrelaçar de duas mãos pode criar uma emoção maior do que um milhão de palavras ou imagens, sendo por isso aceitável que se possa amar um momento ou aquilo que ele representa.
Por isso é inegável dizer que se pode sentir saudades de um olhar ou do simples partilhar de afectos no contacto entre mãos. Se existe amor, existe a saudade e se existe saudade é porque existe algo mais, se tem que existir amor não sei, ou então prefiro não saber, prefiro ter a certeza que sinto saudade.Sentir saudade não é uma coisa leviana, uma coisa simples, algo que a qualquer momento possamos esquecer ou por de parte, a saudade é um sentimento forte e constante como o amor, e tal como o amor, não nos pode ser indiferente. Fica presente em todos os momentos da nossa vida, é um estado de espírito constante, a todos os momentos recorda-nos que estamos com saudade, que não estamos completos, que nunca o seremos até conseguirmos supera-la. É um sentimento exigente, que nos consome, que quando é real não se apaga, simplesmente tem momentos de lume brando.
Se o amor é o fogo que arde sem se ver a saudade é um fogo com chamas enormes, que não se esconde. Se o amor é uma ferida que dói e não se sente, a saudade é a ferida que dói, dói e faz-se sentir de forma quase cruel. Se o amor é o contentamento descontente, a saudade é o descontentamento perfeito, mas se o amor é um não querer mais do que bem-querer, a saudade também o é, se o amor é ser solitário entre a gente, a saudade também, e se o amor é puro, a saudade também!
Não me refiro à saudade adolescente que sentimos quando acabamos de dizer o adeus, mas sim a saudade profunda, que nos assalta a mente nos tira o discernimento, que nos tolda os sentidos, que nos torna fracos. É este sentimento poderoso que me relembra a cada instante que quero voltar ao meu momento feliz, que me diz que não pertenço a este local, que me chama à realidade, que me grita aos ouvidos palavras que incendeiam ainda mais a minha ânsia. Ninguém pode negar que a saudade nos retira a sanidade, retira-nos a capacidade de pensar de forma orientada, faz-nos fazer e ter acções estranhas e sem nexo. Leva-nos a sítios onde não queríamos ir, obriga-nos a andar desligados do mundo, cria em nós a capacidade de ignorar o que nos rodeia, retira-nos a vontade e incute por sua vez o desespero.A saudade actua por fases, torna-se mais forte, apoderasse das nossas fraquezas e usa-as como uma arma. Toma conta dos pensamentos, das emoções, das ideias, vai-nos degenerando, vai-se tornando cada vez mais incapacitante.
A mim a saudade torna-me numa criatura insuportável, torna-me rabugento, com alterações de humor, incapaz de controlar a forma como me sinto e como trato quem me rodeia e que apenas me quer ajudar. Torna-me exagerado, demasiado atento a todos os pormenores que belisquem a minha saudade, torna um simples sussurro num berro, potencia todas as minhas irritações, empola os meus desejos e as minhas inquietações. Provoca-me alterações fisiológicas, o meu corpo sofre espasmos, a tensão desce e sobe sem explicação, a meu coração palpita sem ritmo, as minhas pernas tremem e perdem a força. Como será possível acontecerem tantas alterações, como é possível o meu corpo estar a reagir a um sentimento como se eu estivesse doente?
Mas a realidade é mesmo esta, a saudade ataca como uma doença, torna-nos vulneráveis, apodera-se como dona da nossa mente, domina-nos, como uma febre sem foco, que nos deixa em estado de delírio. Mas deixa-nos num delírio controlado só por ela, faz-nos ver as imagens daquilo que desejávamos sentir e ter junto a nós, e de forma bruta volta a trazer-nos ao mundo real, para nos lembrar que continuamos incompletos, que continuamos doentes.
Seria justo pensar que a saudade é um sentimento que me maltrata e portanto que preferia não o sentir, que preferia nunca ter saudades, mas a verdade não é bem assim. Adoro ter saudades, adoro sentir que estou a passar por todos estes sintomas. Como já disse a saudade dá-nos certezas, nem sempre do amor, mas de que sentimos alguém em nós. E pergunto se haverá sentimento melhor do que ter alguém, ou alguma coisa tão especial que nós torna tão frágeis e ao mesmo tempo tão fortes. No entanto tenho que ser honesto e dizer que nem toda a saudade nos faz bem, pois existe aquela que sabemos que mais cedo ou mais tarde terá o seu fim, e existe também a saudade eterna, que se reserva apenas para seres especiais, e que é avassaladora da mesma forma, com a garantia de que se irá manter de forma quase insuspeita para sempre.
Adoro sentir a saudade paliativa, que tem o seu fim traçado, apesar de me afectar de forma aguda, forte, bruta causando enormes descompensações em mim, mas que ao mesmo tempo vem rodeada de uma esperança encantadora, que faz aumentar todos os sentimentos, que me torna mais forte. Além disso nos momentos em que estou mais nostálgico e afectado recorro sempre ao local onde toda a realidade se torna mentira, onde muitas vezes o tempo volta atrás e encontro de novo os melhores instantes, os melhores sorrisos, os melhores olhares…esses momentos acontecem quando viajo para o mundo dos sonhos.
Mas o momento alto da saudade acontece a quando da sua morte, a saudade, ao contrário de todos os outros sentimentos idílicos, vê no fim um momento de glória, de euforia, de emoção, neste final as lágrimas derramadas revelam felicidade. Haverá morte mais bela do que aquela provocada por um beijo, um abraço, um entrelaçar de mãos, um simples olhar, pois é assim que se mata a saudade, ou simplesmente se deixa inconsciente, já que ela mais cedo ou mais tarde volta e relembra-nos que ao contrário do amor que pode ser eternamente constante, a saudade é eternamente incerta.
Existem inúmeras alegorias ao amor, mas pouquíssimas à Saudade, a Saudade que nos faz acreditar no amor, que nos consome com a mesma intensidade, que faz de nós tão humanos, tão frágeis, tão lamechas e tão verdadeiros!
(...não só de uma mas de várias pessoas...)

Sem comentários:

Enviar um comentário